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Pintar com Luz 24/03/04
autor: Jeremy Webb
título: black boot on sand autor convidado
Jeremy Webb
> Pintar com Luz
24/03/04

Light painting é literalmente "pintar com a luz", e é uma tradução quase exacta da combinação do latim Photo e Graph(y). As cameras têm de ser montadas num tripé numa sala às escuras, com um cabo ligado ao disparador para evitar que a foto fique tremida.

A pré-focagem e composição é feita ainda com o assunto iluminado naturalmente, e quando tudo está pronto, o disparador é colocado na posição 'B' e a abertura em f/16 ou f/22, para ter uma boa profundidade de campo. A técnica em si é muito simples de utilizar, mas é mais difícil de explicar pois envolve segurar uma laterna em movimento (tal como num laboratório de P/B, ao fazer máscaras nas ampliações) para iluminar uma zona que se quer sobressair. Os melhores resultados são conseguidos mantendo a luz num ângulo baixo lateral e movendo-a à volta do assunto em camadas, nas pregas ou dobras, variando e criando os ângulos da luz.

Aqui é onde a experimentação realmente se inicia. Com uma multidude de lentes, cameras, filmes e lanternas, cada qual diferente, não há uma "receita" para se conseguir resultados consistentes numa única cena. Experimentando com tempos de 20 segundos, 30 segundos e 40 segundos, para começar, e anotando os tempos usados em cada fotograma, a exposição ideal irá naturalmente revelar-se para um dado assunto numa determinada cena como uma "média" de luminosidade ou luz reflectida.

Demora algum tempo até se entender como a luz de uma lanterna é reflectida nalgumas superfícies e assuntos. Papel branco ou da China, por exemplo, requerem apenas um relâmpago rápido da lanterna para se definirem totalmente no fotograma. Tecido escuro ou negro, material mate, por outro lado, necessita de ser "pintado com luz" mais demoradamente até que o seu material, relutante em reflectir luz, fique bem definido. Superfícies brilhantes ou envernizadas ficarão com os desenhos de luz feitos pela lanterna, e até já tirei retratos de lanterna onde a superfície vítrea do olho registou brilhos com a forma de estrela à volta da pupila. Quanto mais textura tiver a superfície, mais divertido se torna.

Alguns fotógrafos têm salas preparadas para esta técnica. Eu experimentei retrato e nús. É uma maneira fascinante de aprender tudo sobre a luz, e traz um elemento de risco e imprevisibilidade ao meio fotográfico, cada vez mais preciso e estudado. Como cada movimento coreografado de pintar é humanamente irrepetível, obtém-se imagens totalmente únicas, obras-primas do movimento, tempo, aptidão e decisão, tudo combinado numa única fotografia.

Statement

As minhas naturezas mortas pintadas com luz são uma tentativa de explorar a natureza física das coisas do dia-a-dia, de realçar a natureza táctil única e individual do denominado "lixo", e de explorar os restos de embalagens de produtos produzidos em massa e materiais modernos. Também sou atraído por líquidos, esguichos, e produtos iconográficos consumistas da nossa época.

Apercebi-me de que todos os meus temas parece que "vagueiam" para a minha vida, ou espreitam-me, ou simplesmente surguem aqui em casa, em abrigos de amigos e vizinhos, em praias locais, ou revelam-se inesperadamente debaixo das camas dos meus filhos ou à beira da estrada na minha rua. Fotografo estes temas simplesmente porque eles existem mais proeminentemente na minha vida do que tijelas de platina com uvas, ou orquídeas exóticas. Um pedaços de plástico gasto e descolorido trazido pelo mar numa praia de Norfolk tem tanto direito a ser fotografado como o mais tradicional e trabalhado, e até mesmo vulgarizado tema. Pintando com luz estes misteriosos tufos de erva, ou dejectos deixados ao acaso, respondo às suas pregas, camadas, texturas individuais, e tento revelar a sua individualidade ou o seu "valor" visual aparentemente sem valor e no entant
o incrivelmente único, com todo o direito.

Sou fascinado pelo que existe atrás e para além da aparência imediata da apresentação de um tema, e interesso-me muito mais por detritos e dejectos das nossas vidas materialistas do que por aparências brilhantes. Já há algum tempo que sinto que a fotografia de natureza morta contemporânea está no geral a necessitar de um abanão, e na minha opinião, esse abanão significa voltar a olhar para as coisas da nossa vida diária - plásticos, liquídos, contentores, fast food etc como um antídoto para o brilhante, reluzente e encadeante que compõe muito as naturezas mortas actuais.

Com o obturador aberto durante 30 segundos ou mais, eu literalmente pinto com a luz da minha pequena lanterna de mão, os meus temas de um modo que eventualmente revela um tipo de identidade pararela, ou uma hiper realidade, e revela os pormenores da sua construção ou algo sobre a sua "personalidade" física, se é que isso existe. Sou curioso em relação às arquitecturas internas dos meus temas e tento recuperar o mistério e unicidade das suas qualidades. Tento comunicar um tipo de simplicidade directa e isolada, que é mais económica e acessível, e que comunica poderosamente uma resposta táctil, até mesmo sensual à menos promissora peça de madeira abandonada ou brinquedo partido.

Os meus trabalhos realizados com a lanterna também estão relacionados com natureza da luz e a habilidade única do meio fotográfico em mascarar o movimento e a velocidade como quietude, e brincar inconfortavelmente com o nosso conceito de tempo. Deste modo os meus temas podem parecer enervantemente irreais porque são iluminados por uma luz em movimento como se uma paisagem ondulante fosse iluminada por uma luz baixa, viva de este e de leste ao mesmo tempo. As sombras e os brilhos resultantes perturbam as nossas expectiativas de onde a luz "deveria" cair e onde as sombras "deveriam" surgir, permitindo-nos visualizar o objecto de vários pontos de vista ou alturas do dia no mesmo momento condensado.

O meu objectivo é na verdade o de tentar elevar o estatuto dos meus temas - permitindo à natureza da luz fornecer um novo significado e valor aos estragados, não vistos e ignorados. Fazendo isto, espero desafiar o observador a aceitar e observar este pedaço de "lixo" ou esta coisa vulgar através de uma nova luz, ou explorar o mistério e unicidade das suas características, o que está contido ou esteve agarrado a, para questionar a sua história e possessão, e fazer comparações entre pacotes produzidos em massa, e a unicidade incrível e individualidade da matéria encontrada/gasta.

Tradução: Sofia Quintas

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 Jeremy Webb



publicada em:
2004.05.01


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